O Pasquale e os anos em que o Centro era ponto de encontro
Antes que a cidade acelerasse, antes que o Centro virasse sinônimo de pressa, havia um lugar onde o tempo desacelerava. Fundado em 1957 por João Pasquale, o Bar do Pasquale se tornou um dos pontos de encontro mais emblemáticos de Curitiba. No meio Passeio Público, o restaurante atravessou gerações e virou como símbolo de uma cidade que ainda valorizava a pausa.
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Nas décadas de 1950 e 1960, Curitiba vivia um processo de modernização urbana, mas mantinha forte a cultura dos bares como espaços de sociabilidade. O Pasquale se encaixava exatamente nesse cenário. Ali, políticos, jornalistas, intelectuais, artistas e funcionários públicos dividiam mesas sem cerimônia. Era como se o restaurante fosse a sala de estar de todo mundo. Quem queria saber das novidades passava por lá. Quem queria ser visto, também.

O endereço ajudava a construir essa atmosfera. Dentro do Passeio Público, o restaurante dialogava com a cidade que circulava do lado de fora. Mesas ocupadas desde o fim da manhã, garçons que conheciam os clientes pelo nome e pedidos que se repetiam quase automaticamente faziam parte da rotina.
Entre os pratos favoritos da casa, a feijoada era a campeã. Servida aos sábados, ela reunia clientes assíduos e visitantes ocasionais em torno de uma mesa farta, barulhenta e demorada. Não era apenas uma refeição, mas um ritual embalado por conversas longas e copos sempre cheios. Para muitos curitibanos, a feijoada do Pasquale tornou-se sinônimo de sábado no Centro.

Durante as décadas seguintes, o bar acompanhou as transformações da cidade. Curitiba cresceu e descentralizou seu movimento. Mesmo assim, o Pasquale permaneceu como marco de tradição. Enquanto novos bares surgiam e desapareciam, ele mantinha sua clientela fiel, conquistando paladares de geração em geração.
A partir dos anos 1990, o bar começou a enfrentar um cenário mais desafiador. O Centro já não concentrava o mesmo fluxo de moradores e frequentadores de outras décadas, e o eixo gastronômico da cidade se deslocava para novos bairros. Ao mesmo tempo, o estabelecimento passou por diversas mudanças administrativas, deixando o restaurante sem sua saudosa identidade.

Nos últimos anos de funcionamento, o espaço chegou a mudar de nome em diferentes tentativas de reposicionamento, buscando atrair novo público e se adaptar aos tempos. Mas essas mudanças não trouxeram de volta o prestígio das décadas passadas.
O Pasquale resistiu até o início dos anos 2000, quando encerrou definitivamente as atividades, virando mais um capítulo da lista de bares históricos que fecharam as portas em Curitiba.
O prédio permaneceu por anos como lembrança quando, em 20 março de 2019, a Prefeitura de Curitiba realizou a demolição da antiga estrutura, já bastante deteriorada, para viabilizar um novo projeto urbanístico no entorno do Passeio Público.
Apesar de tudo, a memória continuou sendo preservada. Em 2022, o jornalista e cronista Carneiro Neto lançou o livro “Lá no Pasquale”, obra dedicada a contar a trajetória do restaurante e seu impacto na vida cultural e política curitibana. O lançamento reforçou o que muitos já sabiam: o Pasquale tinha deixado de ser só um restaurante para virar parte da história.

Hoje, quem passa pelo entorno do Passeio Público talvez não imagine que ali funcionou um dos restaurantes mais simbólicos da cidade. Mas para quem viveu aquela época, o Pasquale permanece inteiro na lembrança.
Foto: Claudio Duarte/Reprodução/Facebook